sábado, 16 de janeiro de 2016

IPC - 77 anos de história!!!


Professor Enio Rodrigues da Rosadiretor do IPC.

 No próximo dia 1 de fevereiro, o Instituto Paranaense de Cegos (IPC), completa 77 anos de história. Trata-se de uma das instituições mais antigas do Estado do Paraná.

 Para registrar a data, destaco o trecho de um documento que, segundo consta, é a ata de sua fundação e eleição da comissão provisória, responsável por iniciar aquela importante obra social.

 "Ao 1º dia de fevereiro do ano de mil novecentos e trinta e nove, nesta cidade de Curitiba, em uma das salas da casa, nº 1875, da Avenida República Argentina, realizou-se a sessão de instalação do "Instituto Paranaense de Instrução e Trabalho para Cegos". Declarada aberta a sessão, sob a presidência do senhor Salvador de Maio; vindo como secretário o senhor José Rocha Faria e, com a presença das pessoas que esta subscrevem, as quais ficam sendo consideradas sócias fundadoras; o senhor Salvador de Maio, após discorrer longamente sobre as altas finalidades do Instituto recém fundado, fez um apelo a todos os presentes no sentido de trabalharem sem esmorecimento para que dentro em breve estivesse o mesmo aparelhado e em condições a prestar proveitosa assistência aos seus associados cegos. Nada, digo, em seguida foi aclamada uma diretoria provisória, que regerá os destinos da Instituição, até que se proceda a eleição para a escolha definitiva para o ano social vigente. A diretoria aclamada foi a seguinte: Presidente – Salvador de Maio; Vice-Presidente – Lazaro Campos; 1º Secretário – José Rocha Faria; 2º Secretário – Alfredo Ferrante; 1º Tesoureiro José Nicolau Abage; 1º Orador – Waldemar Costa Lima; 2º Orador – Rubens Mello Braga; Diretor do Instituto – Luiz Gonzaga Pastiglioni; Conselho Fiscal: Lino Mendes Cardoso, Homero Mariano Ferreira, Laudelino Amaral; Como nada mais houve a tratar, o Presidente encerra a presente ata, depois de lida e achada conforme a qual vai assinada por todos os presentes."

 Destaquei o nome de todas as pessoas fundadoras, como forma de prestar uma homenagem e reconhecimento pelo trabalho prestado por este grupo de cidadãos da sociedade curitibana, nesta data tão importante. Como se diz: "a semente não foi em vão."


Parece interessante observar que a iniciativa de criar uma instituição que pudesse assistir as pessoas cegas, não partiu do poder público. Talvez, esta seja uma explicação do porque até hoje o poder público não presta o devido e necessário apoio financeiro, na manutenção das atividades realizadas pelo IPC, para atender as reais necessidades das pessoas cegas.

 Outro destaque importante, consiste em compreender que a história do IPC confunde-se com a história de Curitiba, ao longo desses últimos 77 anos. Da mesma forma que esta cidade, pela via da caridade, da filantropia e do assistencialismo, contribuiu na construção e manutenção deste modelo institucional, este mesmo modelo institucional, através das suas ações caritativas, filantrópicas e assistencialistas, com o passar dos anos e décadas, também contribuiu na formação de uma consciência coletiva dominante que reforçou a ideia da invalidez social das pessoas cegas.

 Esta observação parece importante, não como uma critica, mas, sobretudo como forma de compreender a história deste modelo institucional, surgido na França do final do século XVIII, quando Valentin Hauy, em 1784, fundou o Instituto dos Jovens Cegos de Paris.

 Um lugar onde as pessoas cegas pobres que viviam vagueando e enfeiando a nascente sociedade burguesa, foi tudo o que o iluminismo francês conseguiu pensar em termos de assistência e educação para este segmento social. Naquele contexto histórico, para quem não tinha nada além de algumas iniciativas da igreja, representou um avanço, sem dúvida.

 Na origem Deste modelo institucional, pelo menos cinco características estão presentes e merecem ser destacadas, como reflexão: 
a) local de moradia (internamento); 
b) local de educação (escola especial); 
c) local de trabalho (oficinas artesanais); 
d) local de confinamento (segregação da família e da sociedade; 
e) uma concepção caritativa em relação às pessoas cegas (a ideia do cego "coitadinho" e "pobrezinho").

 Até hoje o IPC ainda conserva um local de moradia, uma escola especial, a manutenção desta concepção segregativa, assistencialista e, por meio de certas ações e atitudes, ainda mantêm a reprodução da invalidez social das pessoas cegas. É claro que tudo isso em situações, condições e circunstâncias históricas muito diferentes de antes.

 No entanto, todos esses traços e características estão esgotando-se e já não encontram mais respaldo total da sociedade. Diante das novas exigências sociais da sociedade contemporânea, o IPC chega aos 77 anos precisando ser reinventado.

 Vivendo entre o passado e o futuro, o IPC já não é mais o que já foi, ainda não tem bem claro o  que é hoje e, por conseguinte, ainda não sabe o que pretende ser. Se não libertar-se das tradições das gerações mortas, o IPC continuará prisioneiro do seu passado e não conseguirá voltar-se para o futuro e pensar os seus próximos
77 anos.

 Por tudo isso, hoje, o IPC ainda é uma espécie de campo minado, onde muitas pessoas cegas e não cegas vivem e convivem nesta contradição. Ali, existem pessoas que são prisioneiras das tradições mortas defendendo com unhas e dentes o mesmo modelo institucional criado na França, como apontei linhas antes. Mas, ali existem também
pessoas que estão refletindo sobre o futuro do IPC, sem negar a importância das contribuições dadas pela instituição nos tempos idos.

 A ideia do Novo IPC, criada a partir do início de 2010, faz parte deste esforço e busca reinventar a instituição a partir dos desafios deste novo momento histórico
que a sociedade brasileira vem enfrentando.

 Para ilustrar minha preocupação, destaco uma frase atríbuida a José Saramago. Eu penso que ela resume bem o que estou pretendendo ressaltar nesses 77 anos.   "O bom das vitórias é que elas não são eternas. O bom das derrotas é que elas também não são eternas."

 Ora, se nada neste mundo é eterno, porque este modelo institucional secular haveria de ser? Os homens e mulheres do seu tempo histórico, como vimos na ata de fundação do IPC, criaram a instituição do seu tempo histórico, dentro das condições e circunstâncias históricas disponíveis. Os homens e mulheres dos tempos atuais, precisam reinventar o IPC e colocá-lo em sintonia com as exigências dos tempos atuais, se efetivamente pretendem deixar uma contribuição histórica como aconteceu com os fundadores do IPC.

 Trata-se de uma luta entre o velho e o novo. Por isso, todo o meu esforço e esperança está depositado no novo, porque a vida é um constante processo de renovação.

O Novo IPC faz parte deste movimento novo que busca compreender e instituir um novo jeito de pensar e fazer. Quem não tem disposição e capacidade de se reinventar ao longo da vida, sofre muito mais e corre o risco de desaparecer muito antes.  

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