terça-feira, 26 de julho de 2011

Deficiente graduado perde espaço

Camila Mendonça

São Paulo 24/07/2011


O número de pessoas com deficiência com ensino superior completo ou pós-graduação no mercado formal de trabalho caiu 28,2% nos últimos três anos. Entre profissionais de todas as escolaridades, a queda foi de 12,3%.
Em 2007, quando o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) começou a analisar esse mercado, 51.676 empregados tinham de graduação a doutorado. No ano passado, eles totalizavam 37.103.
A queda na absorção de profissionais com ensino superior completo ou pós ocorre apesar da reclamação constante das companhias da falta de qualificação dos trabalhadores para cumprir a Lei de Cotas.
A Lei nº 8.213 estabelece cotas de contratação de pessoas com deficiência desde 24 de julho de 1991. A fiscalização começou em 2005 e resultou, até junho deste ano, na contratação de 151.732 profissionais.
"Poucas empresas abrem vaga com alto grau de exigência", diz a superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Teresa Costa d'Amaral.
Camila Isoldi Seabra, 33, que nasceu sem a perna direita e usa prótese, está desempregada há mais de dois anos. A profissional tem diploma de curso superior em psicologia e em pedagogia. "Por todo lugar que passei, é como se eu não tivesse credibilidade profissional", conta.
Com uma pós em direito tributário encaminhada, o advogado Breno Close D'Angelo de Carvalho, 40, conta que conseguia ocupações administrativas. Agora, ele tem o próprio escritório.
"Chegaram a me contratar como analista tributário, mesmo eu tendo deixado claro que não tinha conhecimentos contábeis." Resultado: foi demitido em 45 dias.
Carvalho é cadeirante desde 1999, quando reagiu a um assalto em São Paulo.

Mesmo se fosse cumprida integralmente, a Lei de Cotas excluiria mais de 5 milhões de profissionais, concluiu o economista Vinícius Gaspar Garcia, em seu doutorado, defendido neste ano na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
"A lei geraria cerca de 900 mil vagas por ano, mas temos 6 milhões de pessoas [com deficiência em idade ativa]." Entre profissionais aptos, 5% estão no mercado formal.
O secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo, Marcos Belizário, diz que o baixo número de empregados mostra despreparo do mercado. "As empresas correm para cumprir a cota após a fiscalização", diz.

Até 90% das vagas oferecidas por empresas de recrutamento e seleção especializadas em pessoas com deficiência exigem até ensino médio.
Na i.Social, por exemplo, 90% dos postos são operacionais. "Temos problemas para encontrar vagas para pessoas qualificadas", afirma o sócio-diretor Jaques Haber.
Na Plura Consultoria, metade das vagas são operacionais. O diretor da empresa Alex Vicintin afirma, contudo, que o mercado está começando a "pensar fora da caixa". Segundo ele, a mudança exige também uma nova atitude dos candidatos. "Muitos confundem direitos com regalias", considera.
"Esse mercado está mudando e está aquecido", diz Cláudio Tavares, sócio do site Deficiente Online, no qual 60% das vagas são para candidatos que têm de ensino médio a superior em curso. Na Incluir RH, 40% das vagas exigem até ensino médio.
Pós-graduado em projetos, Victor Rocha, 24, que tem braço esquerdo menor do que o direito, diz nunca ter encarado dificuldades na carreira. Hoje é sócio de empresa.

Reprodução: http://classificados.folha.com.br

Um comentário:

Instituto Paranaense de Cegos - IPC disse...

É interessante observar esta contradição constatada na lógica de funcionamento do mercado de trabalho.

Se por um lado, as empresas reclamam da falta de qualificação das pessoas com deficiência, por outro, quando elas buscam e conseguem a qualificação tão reclamada, o argumento inverte-se.

Todas as pesquisas acadêmicas já realizadas - inclusive na minha própria dissertação de mestrado, são praticamente unanimes em demonstrar: a resistência das empresas em contratar esta força de trabalho ainda é muito grande.

Temos ainda um longo caminho a percorrer até que a sociedade em geral esteja definitivamente convencida que, uma vez assegurado as devidas e necessárias adaptações nos ambientes de trabalho, as pessoas com deficiência poderão ser tão úteis e produtivas como as pessoas sem
deficiência.

Enio Rodrigues Rosa